Alguém de olhos vermelhos,
Mas sem boca para falar:
Não tem palavras que afoguem a dor,
Afunda como prego no mar da tristeza.
Não aprendeu a nadar
Nas lágrimas dos outros,
Não brincou de chorar
soletrando a dor alheia.
Agora pensa que entrou no palco errado
E sua tragédia é mais uma cena muda.
Mas foi ele quem faltou aos ensaios:
Agora não tem mais falas, nem cena
E só a morte lhe acena compreensiva,
Órbitas vazias na espera do último ato.
Alguém de peito aberto,
Mas sem coração para bater.
Não tem braços, nem pernas,
Sua língua na boca inútil secou,
Nenhum rio corre de seu desejo.
Ele já não sabe sorrir para os anjos,
Nem ousa morder seus demônios.
O paraíso, uma lembrança impossível.
Ele não tem lugar algum para ser feliz.
Brasília, 2008