Absinto é pouco

Absinto_Negro

No que deve ser o último da safra 2010, a inspiração veio de uma sequência de fotos postada pela Patrícia Del Rey no seu perfil no Facebook. Como não pude usar as fotos em si, restou o poema, que entrego aos meus escassos leitores…

Crítica da ração pura

Nietzsche não comia cachorro quente, nem Kant:
É fria! sempre categórico ele dizia, num rompante
E os dois tristes viam, na floresta negra da cinza judia
A nação das salsichas a viajar na maionese que vencia.

Brasília, 2010

Ária batráquia

A memória rã pula na frente do presente,

a sapo cururu deixa o agora no escuro.

Memória girino, só essa ficou de menino

E a gia de lembrar do eterno hoje gemia.

Toda memória apenas perereca, inglória, no fundo

De toda lembrança, um brejo do tamanho do mundo.

Rã, sapo, cururu, gia, girino e perereca: é tudo anuro

e memória é tudo aquilo que nos esconde o futuro.

Brasília, 2010

Self portrait II

Em metades desiguais me divido,
Dias me vejo feliz e desconfiado,
Outros nem me enxergo à vista.
Sem horizontes na minha lista,
Queimo navios mil, distraído.
Os astros ignoro, não piso:
A luz que roubo devolvo em dobro.

Em metades iguais dessemelho,
Ora me creio eu, ora nem sei
Que rei sou, que terra habito,
Que olhos comem este eu mito.

Em palavras poucas, proscrito
Me guardo nas línguas que grito.
Poeta sem pessoa, nome ou talento,
Canto só para meu busto ao relento.
Em delírio inoxidável pasto o futuro
E carinhoso tiro versos do monturo.

Brasília, 2009

A escada de Jacó

Alguém de olhos vermelhos,
Mas sem boca para falar:
Não tem palavras que afoguem a dor,
Afunda como prego no mar da tristeza.
Não aprendeu a nadar
Nas lágrimas dos outros,
Não brincou de chorar
soletrando a dor alheia.

Agora pensa que entrou no palco errado
E sua tragédia é mais uma cena muda.
Mas foi ele quem faltou aos ensaios:
Agora não tem mais falas, nem cena
E só a morte lhe acena compreensiva,
Órbitas vazias na espera do último ato.

Alguém de peito aberto,
Mas sem coração para bater.
Não tem braços, nem pernas,
Sua língua na boca inútil secou,
Nenhum rio corre de seu desejo.
Ele já não sabe sorrir para os anjos,
Nem ousa morder seus demônios.
O paraíso, uma lembrança impossível.
Ele não tem lugar algum para ser feliz.

Brasília, 2008