Por que você não escreve?

Para Janete Krissak

Essa é a pergunta que não quer calar de todo mundo que me conhece, desde que me calei…

Eis a resposta do escritor improvável, que não poderia coerentemente responder a isto: a primeira resposta é a do cara-pálida, lógico. Eu, o cara-pálida, digo: quem não escreve sou eu. Porque não escrevo sem provocação externa, ao que parece e à provocação de minha analista responde este texto, que se costura do nada e se alimenta do que venho pensando sobre meu silêncio de tantos anos.

Porque um escritor que não escreve precisa de terapia: ou não é um escritor ou não sabe disso ainda. Porque sempre me dá prazer ver o texto que surge quase magicamente quando me decido a escrever – e no entanto sempre o considero indigno, inadequado. Talvez excessivamente fácil para que represente alguma verdadeira arte. Talvez eu tenha levado demasiado a sério o conselho de Rilke: se puderes ficar sem escrever, não escreva mais.

Mas será que posso mesmo ficar sem escrever?

Drummond recomendava guardar poemas durante dez anos e depois lê-los novamente para julgar se ainda os considerava dignos. Dignos de quê, meu Deus? Que palavra precisa ser dita para salvá-los, tão rígido é esse disco em que nada se salva… Já vou nos trinta anos reescrevendo alguns poemas sem publicar e a contagem continua… Repare que considero alguns poemas bem interessantes. E até já disseram que eu escrevia melhor em prosa, mas quem falava isso não gostava de poesia…

Minha mãe, que sabe do que fala, já resumiu isso numa frase: meu filho só sabe ler e escrever… Ler, com certeza, eu sei e deveria ter me esforçado mais para aprender a escrever. Porque só se aprende a escrever escrevendo. Talvez não escreva pela mais simples razão: para que ninguém leia. Especialmente eu, que não poderia fugir disso, mesmo que os textos jamais fossem publicados.

Percebo um fio de esperança aqui. Se não consegui sopitar a poesia, talvez ainda caiba na definição de Rilke: mesmo que péssimo, poderia ser um poeta. Mas quem quer ser um péssimo poeta? Eu não. De tudo isso sobra, à guisa de conclusão provisória, uma vez que resolvi delimitar este texto aos 2800 caracteres de minhas crônicas de antigamente, a constatação de que tudo se resume ao excesso de pretensão e autocrítica simultâneas. Se houvesse apenas pretensão, a obra iria adiantada, fosse qual fosse.

Na ocorrência simultânea de autocrítica tudo se congela no instante do salto, se o salto é meu, se serão minhas as marcas na areia. Enquanto isso, a areia escorre pela ampulheta. Tudo, ao que parece, vem de muito longe, mas piorou a ponto de quase calar a expressão de alguém cuja maior ambição sempre foi se expressar. E aprendeu que suas palavras quase sempre lhe serviram para ocultar-se. E, não por acaso, desde muito se identifica com Ariel, n’A Tempestade, de Shakespeare: confinado, quedou numa fenda de pinheiro, atormentado… E assim, me expondo ao me ocultar (se não for o contrário), encerro essa primeira batalha.

Este texto é uma versão levemente modificada daquele que escrevi para minha mui querida Janete Krissak, a quem vocês podem agradecer (ou culpar) pela existência deste blog .