Self portrait II

Em metades desiguais me divido,
Dias me vejo feliz e desconfiado,
Outros nem me enxergo à vista.
Sem horizontes na minha lista,
Queimo navios mil, distraído.
Os astros ignoro, não piso:
A luz que roubo devolvo em dobro.

Em metades iguais dessemelho,
Ora me creio eu, ora nem sei
Que rei sou, que terra habito,
Que olhos comem este eu mito.

Em palavras poucas, proscrito
Me guardo nas línguas que grito.
Poeta sem pessoa, nome ou talento,
Canto só para meu busto ao relento.
Em delírio inoxidável pasto o futuro
E carinhoso tiro versos do monturo.

Brasília, 2009

A escada de Jacó

Alguém de olhos vermelhos,
Mas sem boca para falar:
Não tem palavras que afoguem a dor,
Afunda como prego no mar da tristeza.
Não aprendeu a nadar
Nas lágrimas dos outros,
Não brincou de chorar
soletrando a dor alheia.

Agora pensa que entrou no palco errado
E sua tragédia é mais uma cena muda.
Mas foi ele quem faltou aos ensaios:
Agora não tem mais falas, nem cena
E só a morte lhe acena compreensiva,
Órbitas vazias na espera do último ato.

Alguém de peito aberto,
Mas sem coração para bater.
Não tem braços, nem pernas,
Sua língua na boca inútil secou,
Nenhum rio corre de seu desejo.
Ele já não sabe sorrir para os anjos,
Nem ousa morder seus demônios.
O paraíso, uma lembrança impossível.
Ele não tem lugar algum para ser feliz.

Brasília, 2008

Der Mond is nur a nackerte Kugel

Kugel_Nu

Brasília, 1985

Tinha pouco tempo em Brasília quando assisti a uma Mostra de Cinema Alemão patrocinada pelo Instituto Goethe. Der Mond is nur a nackerte Kugel (A Lua é apenas uma esfera nua) era um dos filmes da Mostra e dele não recordo quase nada, exceto o título, do qual surgiu esse poema, subito, acabado.
E como títulos sempre foram a parte mais difícil dos meus poemas, deixei assim no original como homenagem. Mas não aprendi alemão até hoje…

Errata 24/09/2019

Se algo pode indicar quão poucos são meus leitores (ou, em registro mais otimista, quão poucos que sabem alemão), alguém finalmente reparou que o alemão do título estaria incorreto. Nisso eu tive minha parte, mas outra me parece vir do título original do filme, que cita a fala de um personagem que seria algo como um matuto alemão (isso existe?) e provavelmente se trate de algum dialeto ou coisa parecida. E pior, confiei na memória para citar o título original, essa coisa tão temerária depois de certa idade…

Enfim, com todos os agradecimentos a Zildene, que da Alemanha mandou esse feedback, republico com as devidas correções o poema. Quem quiser conferir, o filme está listado no IMDB.

Caruaru

Resta solar no pífaro de viver nossos dias,
Dias assim feito pêlos do animal fulgurante
E bater dentes no ritmo pávido de ser,
Frágil instante, tremor no dorso do caos.

João Pessoa, 1980

De rerum natura

Todos me dizem: são pássaros!
Quando sei que são travesseiros ao avesso,
Úmidos da dor que nunca neles silencia,
Recheados de sangue incandescente,
De sonhos que partem da terra sem lar.

Todos me dizem: são peixes!
Quando sei que são baleias,
Sereias obesas de tanto amor nelas desafinou,
Recheadas de sangue incandescente,
De sonhos que afundam sem pena no mar.

Brasília, 2006