Vamos soletrar o ideograma?

Na verdade, os membros da Árvore da Morte não se conheciam entre si
e não tinham noção de sua mútua existência.
Pois nenhum deles conhecia nada além de sua própria voz
e não via nada além daquilo que estava diante de seus olhos.
Quando algum deles gritava, todos ouviam.
Ao percebê-lo, lançavam-se impetuosamente na direção da voz.
Não conheciam nada mais.

Fragmento maniqueu recolhido por Severo de Antióquia *

Que universo se estende ante nós? Se sua verdadeira natureza é benéfica, como se revela tão lacunoso, tão esquivo em sua complexidade? Como desespera a incapacidade de abranger sua ilimitada finitude. Os maniqueus imaginaram para a raça humana um destino de expiação em um mundo governado por um espírito maligno, inimigo: o mundo da matéria sob a regência do caos. De que outra maneira imaginar um mundo que se esquiva ao logos, à ordenação calma e pacífica das palavras e das coisas?

A ciência pretende um conhecimento claro e ordenado do mundo natural. A arte é mais sutil, mais particular em sua fruição, em seu hic et nunc, naquilo que lhe empresta seu caráter de unicidade: sua condição de atingir em particular a cada espectador, de falar de coisas que esquecemos, que esquecemos que esquecemos.

O que esquecemos? Que vamos procurar na arte? Para Baumgarten, o objeto de arte seria uma representação confusa, sensível, mas perfeita. Representação do mundo. Que mundo é este? Que tempo o governa, se governa, um tempo que não é nosso? Deuses, demônios, avatares, arquétipos: as religiões, as doutrinas esotéricas, a psicanálise, já se entregaram à exploração deste mundo. Dele já temos histórias, geografias, gramáticas, muitos relatos de viagem.

Os despojos dos exploradores: objetos, canções e poemas de estranhas, infinitas formas. Se todo tempo é eternamente presente (Elliot), que espaço, que realidade física (?) abriga essa terra mítica do Inconsciente (para usar a terminologia freudiana)? Podemos considerar duas realidades que se combinam, num nível de complexidade inimaginável: a individualidade biológica e a existência social do homem.

Mitos são coisas que nunca aconteceram mas que sempre existiram, dizia Salustius, já no século IV, antecipando-se à tendência moderna que tende a considerá-los menos produto da imaginação delirante dos primitivos e mais como metáforas de alguma sutileza sobre algum assunto difícil de descrever de outra maneira (Carl Sagan). Essa concepção do mito, que deve a Vico sua primeira formulação mais completa, foi retomada mais recentemente por Durkheim e Lévy-Bruhl e, a partir das descobertas de Freud, encontra na psicologia arquetípica uma forte base de apoio.

Se Durkheim afirmou que o mito tinha como verdadeiro modelo não a natureza, mas a sociedade, e que este é, em todo caso, a projeção da vida social do homem, Jung tentou mostrar que ele é também a projeção dos conflitos interiores da mente, conflitos que vêm à tona sempre de forma mítica, velada, metafórica.

Como comunicar então? Como falar, traduzir-se, conhecer sequer a si próprio? O cérebro humano é um computador de 10 trilhões de bits. Uma representação confusa talvez seja inevitável na arte, ao tentar exprimir realidades tão complexas através do sensível. Arte e mito como busca do sentido: na aproximação da arte moderna com a ciência podemos enxergar (na direção do ideograma?) o caminho de um futuro conhecimento totalizante, sem taxonomias e generalizações. Antonio Dias: toda redução ou ampliação é uma forma de acomodação.

Pascal julgava que o mais engrandecedor e doloroso da condição humana era o fato de viver ao meio de um cosmos secreto, incompreensível em sua finalidade, um cosmos que penetra pelos estreitos poros dos nossos sentidos. Na Árvore da Morte, experimenta-se a mesma situação: o conhecimento se oculta, dilui-se o sentido. Lançamo-nos na direção da voz do Outro, impetuosamente na direção de seu discurso, se o ouvimos. Não conhecemos nada mais.

( * ) Citado por Henri-Charles Puech in Satán: Estudios sobre el adversário de Dios, Editorial Labor, Barcelona, 1975. A tradução é minha. Mani há de me perdoar…

Retomo este texto de 1981 não apenas como prova de que a idade não melhora nosso texto, mas pela sua vinculação com meu projeto presente, que deve usar a mesma epígrafe, agora num contexto teatral.

3 comentários

  1. Avatar de Renio
    Renio · abril 25, 2006

    Este texto é uma adaptação daquele que escrevi em 1981 para o catálogo de uma exposição do Raul Córdula, texto que foi muito bem recebido e creio ser uma das melhores coisas que cheguei a publicar.

    Mas não tomaram nenhuma providência, como diria aquele louco da Dra. Nise…

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  2. Avatar de Nevinho
    Nevinho · abril 27, 2006

    Rênio esbanja conhecimento. Depois que se fica sabendo o contexto para o qual o texto foi escrito, compreende-se sua erudição. Até então, parece dispensável a profusão de referências, bastando ao leitor fruir a sensibilidade do poeta Rênio Assis.

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  3. Avatar de Cláudio
    Cláudio · maio 2, 2006

    Fantástico!
    Parabéns boneco.

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