De la tierra oscura brota Satán
Fragmento maniqueu citado por Severo de Antióquia
Numa linda manhã cinzenta, o funcionário encontrou em sua baia, logo ao chegar, brotando numa área de sombra entre dois processos, um lindo problemazinho em flor. Emocionado, reparou nas duas folhinhas de uma exposição de motivos que já podiam ser entrevistas e correu para avisar o chefe.
Experiente como era, cuidou de fechar a janela para evitar que um excesso de claridade prejudicasse o rebento. Sabia que muitas vezes a falta desse cuidado simples matava o problemazinho logo no início, antes que pudesse criar forças e alocar recursos. Ele não podia deixar que isso acontecesse, aquele problema tinha nascido ali e ele sentia a responsabilidade crescendo em seu peito: se eu não cuidar dele, ninguém o fará!, pensou, enternecido.
Ademais, refletiu, quando ele crescer e ocupar todo um departamento, talvez alguém lembre que fui eu quem o viu primeiro… E com o coração cheio de esperanças, contou sua descoberta para toda a equipe na primeira reunião do dia. O chefe, que nunca havia visto um problema de perto, ainda mais um assim, fresquinho, recém-nascido, ficou entusiasmado e comandou: cuide bem dele! Na próxima reunião, já quero um relatório, OK?
O funcionário, sábio e antigo, então falou, em tom profético: Chefe, se colhermos as flores, não veremos os frutos! Em pouco tempo, se cuidarmos bem do problema, teremos mais áreas de sombra, muitas interveniências e novos problemas brotarão…
E assim aconteceu: a sombra, a água fresca e a borra do café das reuniões com inúmeros intervenientes fertilizaram o solo do setor e de cada falha nos processos brotaram inúmeros problemazinhos associados. E logo o setor crescia, junto com os frondosos galhos que o problema estendia por toda a organização Vinham pessoas de todos os setores conhecer o problema, sempre apresentado em salas escurecidas, como recomendava seu sábio descobridor.
Mas um dia, muito tempo depois, o funcionário precisou se aposentar. Deixou longas recomendações escritas sobre os cuidados a tomar e viajou para o exterior, para dar conferências sobre gestão esotérica da complexidade e outros assuntos em que se especializara.
Numa bela manhã de sol, deu-se a catástrofe: um funcionário inexperiente foi cuidar do famoso problema e quando, cego por ignorância, inocência ou malícia, foi incapaz de enxergar o problema, correu a abrir a janela. Sobre a cabeça do imprudente, desabou todo um castelo de cartas-circulares, memorandos, organogramas, notas técnicas e relatórios. Sua morte foi instantânea e reza a piedosa tradição, sem dor.
Antes que tudo se dissolvesse, o chefe saltou impávido do topo, fechou a janela e apontou os milhares de novos problemas que brotavam da penumbra. E assim começou a Reestruturação…
Esse é digno de ti. Simplesmente genial!
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Adorei. Muito bom.
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